Fichamento "Teoria do não objeto"

 A teoria do não-objeto, formulada pelo poeta e crítico de arte Ferreira Gullar, nasce como uma resposta e um avanço em relação ao neoconcretismo, movimento do qual ele próprio fez parte. Gullar propõe um afastamento da ideia tradicional de obra como algo físico e fixo, defendendo que a arte deve desprender-se da materialidade para tornar-se uma experiência dinâmica e em constante transformação. Para ele, o não-objeto não pode ser delimitado como um objeto convencional, mas deve ser entendido como um campo de relações, uma configuração que se revela no tempo e no espaço por meio da participação do espectador. Assim, a obra deixa de ser um resultado pronto e passa a constituir um processo permanente, no qual o sentido se realiza na vivência do momento. Nessa visão, a arte privilegia a percepção sensível, a intuição e o envolvimento ativo do público, que deixa de ocupar a posição de observador passivo para assumir o papel de cocriador da experiência estética.

O ponto central dessa teoria está na convicção de Gullar de que a arte ultrapassa forma e matéria, manifestando-se sobretudo na “experiência existencial” que desperta. O não-objeto busca revelar a plenitude da vivência humana, incorporando dimensões como tempo, espaço e movimento. Esse conceito aparece de maneira especialmente evidente em criações neoconcretas como os “Bichos”, de Lygia Clark, e os “Parangolés”, de Hélio Oiticica, obras que convidam o público a manipular, vestir ou interagir diretamente com elas, rompendo com a noção de obra isolada e intocável. Para Gullar, dissolver a forma tradicional do objeto artístico não significa negar a arte, mas ampliar suas possibilidades, permitindo que ela se entrelace com a vida cotidiana e se transforme em uma “realidade em si”, acessível e participativa para todos.

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