Fichamento Hertzberger parte "A - Domínio Público"

 Retomando a ideia de responsabilidade do projetista discutida por Flusser, Herman Hertzberger, nos capítulos iniciais de sua obra, critica a divisão rígida e dicotômica entre público e privado, tal como se consolidou ao longo do tempo. Para ele, essa separação extrema é prejudicial porque contribui para o enfraquecimento do espaço público e de sua valorização pelos próprios usuários. As ruas, antes locais de convivência espontânea, encontros entre vizinhos, brincadeiras de crianças, conversas após o trabalho, aos poucos foram perdendo essa vitalidade. É comum ouvirmos de familiares mais velhos relatos sobre como passavam horas do lado de fora, vivendo intensamente esses espaços compartilhados. Esse processo ocorreu de forma relativamente espontânea no contexto brasileiro, especialmente nas periferias e bairros residenciais, mas Hertzberger aponta que a Arquitetura e o Urbanismo contemporâneos também têm responsabilidade nisso, pois se afastaram de sua função mediadora de promover encontros e criar ambientes coletivos de qualidade.

Entre edifícios, portarias, garagens, muros ou casas cercadas por grades, o autor mais adiante aborda as “fortalezas” que construímos para nos isolar em nossos lares protegidos. Com isso, as ruas, que já foram sinônimo de movimento e vida, tornam-se espaços hostis e inseguros, muito por conta da ausência de uma transição gradual entre o interior privado e o exterior público. Hoje, diante do aumento da violência, por exemplo, cada morador acaba se concentrando em proteger apenas sua própria propriedade, aumentando ainda mais essa fragmentação.

A pergunta que surge é: se todos cuidam apenas do que lhes pertence, quem se responsabiliza pela rua? Como alternativa, Hertzberger propõe que os espaços projetados considerem uma passagem suave entre público e privado. Trabalhar com nuances de interioridade e exterioridade por meio de soluções arquitetônicas que introduzam zonas intermediárias permitiria, dentro das casas, ambientes mais abertos e sensíveis, e, do lado de fora, uma presença humana mais atenta e protetora. Dessa forma, seria possível estimular uma reanimação do espaço público, resgatando o caráter vivo e acolhedor das ruas.

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