Design: Obstáculo para remoção de obstáculos? (fichamento)

 Lygia Clark, Mário Oiticica, Julio Le Parc e os demais artistas estudados em aula demonstravam, cada um à sua maneira, grande interesse pela relação entre obra e público. No texto de Vilém Flusser, porém, o foco se desloca do campo artístico para uma dimensão mais prática, cotidiana e até sociológica. Ele discute como, ao longo da história humana, criamos utensílios, ferramentas, pequenos objetos, engenhocas e “bichos” que nos ajudaram a superar limitações impostas pela natureza.

Partindo disso, Flusser observa que uma visão voltada exclusivamente para o objeto, entendido apenas como coisa material, empobrece seu potencial. O que realmente importa, segundo ele, é a função que essas coisas desempenham ao mediar relações, diálogos e interações entre as pessoas. Ele chama a atenção para a responsabilidade de projetar equilibrando forma, função e relação, de modo que os artefatos mantenham sua relevância ao longo do tempo.

Ainda assim, Flusser não cai na ilusão de criar objetos permanentes. Para ele, todo instrumento tem um caráter transitório: um dia se integra ao cotidiano, mas inevitavelmente se torna obsoleto e é descartado. Até mesmo softwares e programas, apesar de se afastarem da materialidade tradicional, acabam funcionando como obstáculos, já que limitam o usuário através de comandos e usos previamente definidos. Ao mesmo tempo, abrem novas possibilidades de criação ao permitir que projetistas trabalhem com dimensões imateriais, relacionais e intersubjetivas, em oposição à rigidez de pensar apenas no objeto físico.

Aplicando essa lógica ao campo da arquitetura e do urbanismo, percebemos que os espaços que projetamos não são para nós, mas para pessoas autônomas, capazes de se apropriar deles das mais diversas formas. Esse uso plural só é possível porque, na concepção do projeto, houve um cuidado em articular inventor, objeto e usuário, o que gera um legado incorporado ao ambiente construído. Assim, o espaço ganhará novas funções ou se atualizará com o tempo, seja de maneira espontânea ou forçada, independente do que foi inicialmente previsto. Em última análise, o essencial não é o edifício em si, nem mesmo o cliente: o que realmente importa é o processo de uso, que responde ao grande obstáculo da habitação, o “objeto casa”, e ao desejo humano por um teto, literal e metaforicamente.

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